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A TERRA QUE SE VÊ AO
ESPELHO
Vê-se
ao espelho há mil anos em San Lucar del Guadiana, do outro lado do
rio que a separa de Espanha. Ainda que sem ponte misturando as
gentes, Alcoutim nunca esqueceu a terra andaluza, mesmo quando uma
simples ida ao outro lado dependia dos fígados (a maior parte das
vezes maus) do guarda do lado português. Agora, a terra que se vê
ao espelho quer ter direito ao seu próprio ritmo de vida. É difícil
falar em desenvolvimento, por estas bandas.
Mas, desabituados às agruras, à marginalização e à debanda dos
seus filhos, os alcoutanejos resistem a encontrar o seu
caminho por entre os escolhos. E ele está ligado a esse outro
espelho em que Alcoutim se revê todas as manhãs: as águas do
grande rio trans-ibérico que por ali morre depois de muitas curvas,
quedas e aventuras.
O sol bate, quente, nas paredes
brancas do casario. Há frontarias impecavelmente caiadas e
vasos floridos na soalheira das portas. As ruas, calcetadas,
serpenteiam monte acima em direcção ao Castelo. Lá do alto, vêem-se
pequenos barcos, parados, sobre o enorme espelho de água. À beira
do rio, um pastor guarda meia dúzia de cabras. Ouve-se o som dos
chocalhos e pouco mais. O que se respira é a mais pura
tranquilidade.
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